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Explicações das teorias de Ken Day — Parte 2

 CLUBE DO CONCRETO · SÉRIE TÉCNICA · PARTE 2 DE 3


Superfície específica modificada: fatores, cálculo e interpretação

A superfície geométrica cresce rapidamente à medida que o tamanho dos grãos diminui. Mas a demanda de água do concreto não pode ser descrita apenas por essa relação.

Na primeira parte, vimos por que uma mesma quantidade de sólidos apresenta maior área quando é subdividida em partículas menores. Agora, o passo seguinte é compreender a superfície específica modificada: um índice que utiliza fatores empíricos para interpretar a granulometria na dosagem.

Película de água e preenchimento de vazios

Uma imagem útil é imaginar a água formando uma película sobre cada grão. Mantida a espessura da película, uma superfície maior exigiria mais água. Entretanto, a mistura também contém espaços entre as partículas. Seu preenchimento e a mobilidade do conjunto dependem do empacotamento e da pasta disponível.

Em um modelo ideal, conjuntos de partículas geometricamente semelhantes, organizadas da mesma maneira, podem ter a mesma proporção de vazios, ainda que suas dimensões sejam diferentes. Isso ajuda a entender por que o comportamento não deve ser atribuído exclusivamente ao tamanho absoluto dos grãos.

O sentido da modificação

Os fatores de Day procuram representar a resposta prática dos materiais. Nas frações mais finas, não seguem indefinidamente o crescimento da relação geométrica 6/D. São coeficientes de um índice, e não medições diretas de área em m²/kg.

Esse raciocínio não estabelece um limite universal para o consumo de água. Finos de diferentes naturezas, sobretudo quando há argilas, podem produzir respostas muito distintas.

Os fatores utilizados na série original

O quadro abaixo conserva os valores publicados na segunda parte da série. As aberturas foram mantidas como no original para não alterar silenciosamente a referência de cálculo.

Quadro 1 — Fatores de superfície específica modificada
Peneira (mm)Fator de SS
50,001,00
38,101,00
25,001,50
19,002,00
12,503,00
9,504,00
6,306,00
4,808,10
2,4014,90
1,2025,00
0,6038,60
0,3057,70
0,1580,50
0,08104,70
Fundo — passante em 0,08 mm104,70

A linha “0,00” do quadro antigo foi identificada como fundo. Ela não representa uma partícula de diâmetro zero. Os fatores pertencem à convenção desta tabela; uma série de peneiras diferente exige compatibilização.

Figura 1 — Valores da tabela em eixo horizontal logarítmico. A linha apenas conecta os pontos e não representa uma nova calibração. O fundo não é incluído no gráfico, pois não possui abertura definida.

Como calcular o índice

Na convenção de ponderação pelas frações retidas individualmente, multiplica-se cada percentual pelo fator correspondente, somam-se os produtos e divide-se o resultado por 100:

SS = Σ(pᵢ × fᵢ)/100

Nessa expressão, pᵢ é o percentual retido individual na fração, e fᵢ é o fator adotado. Os percentuais, incluindo o fundo, devem totalizar 100%. Não se deve substituir a retenção individual pela acumulada.

Quadro 2 — Exemplo didático de cálculo, com apenas três frações
FraçãoRetido individualFatorContribuição para SS
4,80 mm40%8,103,24
1,20 mm35%25,008,75
0,30 mm25%57,7014,425
Total100%—26,415 ≈ 26,42

Distribuição fictícia para demonstrar a aritmética; não é uma recomendação de granulometria ou um traço de concreto.

Também é possível combinar mais de dois agregados. Se todos os índices forem calculados na mesma base, o índice da combinação será a média ponderada pelos respectivos teores. A dificuldade, quando há vários materiais, está em definir uma solução de proporções entre as muitas possíveis; são necessários outros critérios de desempenho e de composição.

O gráfico original e o uso de ajustes

Na publicação de 2016, apresentei o ajuste y = 21,647x−0,771, com R² = 0,9827. Essa expressão é uma função de potência, e não uma função exponencial. O coeficiente indica a aproximação aos dados utilizados no ajuste; não comprova, por si só, a capacidade de prever o comportamento do concreto.

Para reproduzir os cálculos desta série, a referência é a tabela. Não é adequado extrapolar a expressão para diâmetro zero ou substituir todos os fatores pela equação sem avaliar o efeito da mudança. A adaptação a outras peneiras também deve explicitar o critério de interpolação e ser conferida com os materiais empregados.

Quadro 3 — Valores associados às curvas da Road Note 4 no artigo original
CurvaSS
116,00
220,00
325,00
433,00

Esses números são apresentados como referência histórica da comparação feita no artigo. Não constituem uma faixa universal de aceitação para qualquer concreto.

Finos e amostragem: onde a interpretação exige cuidado

A quantidade de finos, isoladamente, não descreve seu efeito. Pó de rocha, silte e argila podem ter áreas superficiais, formas e interações com a água e os aditivos bastante diferentes. Assim, resultados observados para um material não devem ser transferidos automaticamente para outro.

A versão original mencionava observações atribuídas a Day sobre teores da ordem de 6% em volume e diferenças de demanda de água entre silte muito fino e pó de rocha. Esses relatos devem ser entendidos como experiências específicas, não como limites de aceitação nem como multiplicadores universais.

Ensaios de sedimentação podem auxiliar a triagem, mas não substituem a caracterização necessária. Da mesma forma, uma análise granulométrica muito precisa pouco resolve se a amostra não representar o estoque ou a descarga utilizados na produção.

Aplicação prática

Ao observar uma mudança relevante, confirme a representatividade da amostra, repita a avaliação quando necessário e compare o índice com os resultados do concreto. A utilidade do número está na relação que ele mantém com os materiais e com a produção.

Fonte e contexto editorial

Reescrita do artigo original desta parte, publicado no Clube do Concreto. As ideias de Ken Day são apresentadas em caráter explicativo. Os quadros e esquemas foram redesenhados; as distinções entre modelo geométrico, índice empírico e aplicação experimental foram explicitadas.

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Explicações das teorias de Ken Day — Parte 1

 Clube do Concreto · Série técnica · Parte 1 de 3


Superfície específica: a lógica por trás da dosagem

Uma curva granulométrica mostra como os tamanhos dos grãos se distribuem. Ken Day propõe olhar também para outra informação: a superfície que esses grãos oferecem à pasta.

Ao dosar um concreto, não basta perguntar quanto agregado graúdo e miúdo será utilizado. É preciso compreender como a dimensão, a distribuição e a forma das partículas influenciam a quantidade de pasta, a demanda de água e a coesão da mistura. É nesse contexto que a superfície específica se torna uma ferramenta de interpretação.

Por que olhar além da curva granulométrica?

A ideia de relacionar a superfície dos agregados à dosagem é anterior ao trabalho de Day. A publicação original desta série recordava contribuições de Edwards, Young e Stewart, além do procedimento de Newman e Teychenné, de 1954, discutido como alternativa às curvas da Road Note 4.

O ponto central é que não existe necessariamente uma única curva capaz de produzir um concreto satisfatório. Distribuições granulométricas diferentes podem apresentar comportamento semelhante em determinadas condições. Na abordagem de Day, um índice de superfície ajuda a comparar essas distribuições e a acompanhar mudanças nos materiais.

A ideia de partida

Uma alteração granulométrica que muda a superfície total pode modificar o comportamento do concreto. Se o índice de superfície permanece semelhante, algumas propriedades podem permanecer próximas — desde que os demais fatores também sejam compatíveis.

Essa equivalência é uma hipótese de trabalho a ser verificada. Duas misturas com o mesmo índice ainda podem diferir em forma dos grãos, empacotamento, mineralogia, absorção e presença de argilas.

Grãos menores, maior superfície por volume

Para entender a relação, vamos representar os grãos por esferas. Trata-se de um modelo geométrico didático, e não da descrição exata de um agregado real. Para uma esfera de diâmetro D e raio R:

S = πD²   ·   V = πD³/6
S/V = 6/D = 3/R

Ao reduzir o diâmetro, a área de cada grão diminui. Entretanto, para manter o mesmo volume de sólidos, passa a ser necessário um número maior de grãos. O resultado é o aumento da área total por unidade de volume.

1 esfera · diâmetro DDivisãoMesmo volume8 esferas · diâmetro D/2
Figura 1 — Dividindo uma esfera em oito esferas com metade do diâmetro, conserva-se o volume e duplica-se a área total. Esquema geométrico, sem representação do empacotamento.
Quadro 1 — Relações geométricas para partículas esféricas
Diâmetro D (mm)Área S (mm²)Volume V (mm³)S/V (mm⁻¹)
38,004.536,4628.730,91200,158
19,001.134,113.591,36400,316
9,50283,53448,92050,632
4,7570,8856,11511,263
2,3617,506,88232,542
1,184,37440,86035,085
0,601,13100,113110,000
0,300,28270,014120,000
0,150,07070,00176740,000
0,0750,01770,00022180,000

O quadro foi recalculado com as relações geométricas acima. A última coluna é uma razão área/volume, expressa em mm⁻¹. Ela não deve ser confundida com os fatores empíricos de superfície específica modificada apresentados na próxima parte.

Da distribuição granulométrica a um índice

Em vez de contar e medir individualmente todos os grãos — tarefa especialmente difícil nas frações finas —, utiliza-se a distribuição por peneiramento. Cada fração recebe um fator representativo, e sua contribuição depende da quantidade presente na amostra.

Esse raciocínio permite reunir a granulometria em um indicador. Porém, o resultado só é comparável quando se mantém a mesma definição dos fatores, a mesma base de cálculo e a mesma convenção para as frações retidas.

O teor de areia e a forma das partículas

Na interpretação de Day, a superfície específica ajuda em duas decisões relacionadas: estimar alterações na demanda de água e orientar ajustes na proporção de areia. Elas não são, contudo, a mesma decisão.

Quadro 2 — O que muda quando muda a areia?
AlteraçãoInterpretação para a dosagem
Areia mais finaUma quantidade menor pode proporcionar coesão semelhante à de uma quantidade maior de areia mais grossa. A hipótese precisa ser conferida na mistura.
Partículas menores em relação à britaPodem preencher espaços com menor interferência no esqueleto graúdo; o resultado depende da distribuição completa e das proporções.
Maior angularidade ou textura mais ásperaPode elevar a demanda de água e alterar o empacotamento. Não equivale simplesmente a reduzir o tamanho dos grãos.

Por isso, incorporar indiscriminadamente um fator de forma ao índice usado para escolher o teor de areia pode conduzir a uma interpretação inadequada. Uma areia angular pode exigir mais água sem justificar a mesma redução de teor que seria considerada para uma areia apenas mais fina.

Na lógica discutida nesta série, o índice granulométrico orienta a proporção dos materiais, enquanto os efeitos de forma e textura sobre a água precisam ser considerados e calibrados separadamente.

O que levar para a próxima parte

A superfície geométrica explica por que o tamanho dos grãos importa. Para estimar o comportamento do concreto, Day trabalha com fatores modificados, que procuram representar a experiência prática sem reproduzir literalmente a relação 6/D.

Fonte e contexto editorial

Reescrita do artigo original desta parte, publicado no Clube do Concreto. As ideias de Ken Day são apresentadas em caráter explicativo. Os quadros e esquemas foram redesenhados; as distinções entre modelo geométrico, índice empírico e aplicação experimental foram explicitadas.

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4. Ken W. Day: seu conhecimento não será esquecido

 Clube do Concreto • Memória da engenharia • Parte 4 de 4

Ken W. Day: seu conhecimento não será esquecido

O livro, a esperança de continuidade e a homenagem do Clube do Concreto a quem dedicou a vida a ensinar.

O homem parte. O conhecimento não precisa partir com ele. Esta última parte da homenagem é dedicada ao que Ken Day deixou escrito — e à responsabilidade de quem recebe essa herança.

O livro de uma vida

Concrete Mix Design, Quality Control and Specification reúne grande parte de sua contribuição. Dosagem, ensaios, estatística, controle e especificação aparecem como assuntos conectados à produção.

A terceira edição, de 2006, contém a passagem que motivou esta homenagem. A quarta edição tem como autores Ken W. Day, James Aldred e Barry Hudson, ampliando a continuidade desse trabalho. [fonte] [fonte]

Capa de Concrete Mix Design, Quality Control and Specification, quarta edição
Capa da quarta edição, de Ken W. Day, James Aldred e Barry Hudson. Obra publicada pela CRC Press / Taylor & Francis. Imagem de divulgação editorial, disponibilizada no catálogo bol.com.

A esperança de que outros continuassem

Na Introdução da terceira edição, Day explica que seu livro e os programas gratuitos de seu site ajudariam a levar seus desenvolvimentos também aos pequenos produtores. Ao desejar a continuidade da atualização dessas informações, escreveu:

“perhaps even by others after my own final full retirement”
Ken W. Day, Introdução da terceira edição.

Em tradução livre: talvez até por outros depois de minha aposentadoria definitiva. [fonte]

O trecho expressa uma esperança de continuidade. Não é uma declaração literal de medo de ser esquecido, nem permite afirmar que ele usou a aposentadoria como sinônimo de morte. Mas podemos reconhecer ali uma preocupação com o futuro da difusão de seu trabalho.

É a essa esperança que o Clube do Concreto deseja responder. O conhecimento continua encontrando leitores. Suas ideias ainda merecem ser estudadas, discutidas e transmitidas.

O reconhecimento em vida

Em 2011, Ken Day recebeu o Richard D. Gaynor Award, da NRMCA. A homenagem recorda sua atuação internacional e o reconhecimento por entidades profissionais, incluindo o American Concrete Institute e o Concrete Institute of Australia. [fonte]

Naquele momento, a entidade também registrou seu desejo de concluir uma quarta edição do livro. A publicação posterior, com Aldred e Hudson, é um exemplo concreto de como a continuidade de uma obra pode envolver outras pessoas.

O tecnologista permanece em sua obra

Uma homenagem publicada pela Concrete International registra seu falecimento em 17 de março de 2016, aos 85 anos, citando informações transmitidas por seu filho John. [fonte]

Para o Clube do Concreto, a lembrança de um profissional como Ken Day não se resume a uma data. Ela está no hábito de consultar o trabalho original, indicar a autoria de um método e reconhecer o esforço de quem tornou determinado conhecimento acessível.

Como manter um legado vivo
01
Estudar

Ler os trabalhos e compreender seu contexto.

02
Reconhecer

Citar os autores e examinar seus métodos.

03
Transmitir

Compartilhar o aprendizado com quem vem depois.

Quadro ilustrado editorial • Clube do Concreto.

Por isso existe o Clube do Concreto

Compartilhar conhecimento é uma das razões da existência deste espaço: o conhecimento dos livros, das fábricas, dos laboratórios e das obras. Também aquele que se forma depois de erros, acertos, noites de cálculo e muitos anos de experiência.

Ken Day é um dos nomes que merecem permanecer nessa conversa. Quando utilizamos uma ideia, lembrar sua origem é uma forma de justiça técnica. Quando discutimos suas limitações, também ajudamos a manter o conhecimento vivo.

Esta homenagem nasce de uma convicção pessoal e de um compromisso editorial. Não pretende falar em nome de todos os profissionais, mas certamente poderá encontrar companhia entre aqueles que estudam e valorizam a tecnologia do concreto.

Ken Day, o Clube do Concreto não esqueceu

Não esqueceremos sua contribuição à dosagem, seu empenho no controle estatístico e sua disposição para ensinar. Não esqueceremos o esforço de aproximar conhecimento e produção, nem a importância de tornar ferramentas úteis acessíveis a mais profissionais.

Conhecimento técnico permanece vivo quando é estudado, utilizado, questionado e transmitido à próxima geração.
Compromisso do Clube do Concreto.

Ken W. Day, obrigado por aquilo que deixou. O Clube do Concreto assume sua parcela nessa responsabilidade: continuar lembrando, estudando e compartilhando.

Homenagem do Clube do Concreto
Eng. Ruy Serafim de Teixeira Guerra
Em reconhecimento a quem dedica uma vida à engenharia e compartilha seu conhecimento.
Identificador da série: KEN-DAY-LEGADO-4
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